História do Inter

Clube do Povo: A origem popular do Internacional

Clube do Povo é o apelido que o Internacional ganhou por ter se aproximado, ao longo do século XX, das camadas populares de Porto Alegre: trabalhadores, comerciários e, de forma decisiva, a comunidade negra da cidade. Essa identidade foi construída aos poucos, com a entrada de jogadores negros a partir de 1928, a força do time dos anos 1940 conhecido como Rolo Compressor e, mais tarde, um estádio erguido com tijolos, cimento e ferro doados pela torcida.

A trajetória, porém, não foi uma linha reta, e o próprio Inter teve momentos de portas fechadas antes de se tornar um clube de massa. A seguir, você vê como o futebol de Porto Alegre era dividido no começo do século, quem foram os pioneiros negros do clube, o papel de Tesourinha e do Rolo Compressor e como a torcida ajudou a levantar o Beira-Rio.

Resumo rápido do Clube do Povo

  • Origem social: fundadores e primeiros sócios eram estudantes, comerciários, funcionários públicos e trabalhadores do cais.
  • Pioneiro negro: o defensor Dirceu Alves, que estreou em 1928 e é reconhecido pelo clube como o primeiro atleta negro de sua história.
  • Contexto: a comunidade negra organizava seus próprios campeonatos, como a chamada Liga da Canela Preta.
  • Auge esportivo: o Rolo Compressor, hexacampeão gaúcho de 1940 a 1945 e campeão de novo em 1947 e 1948.
  • Grande ídolo: Tesourinha, ponta-direita negro revelado em Porto Alegre e campeão sul-americano pela seleção em 1949.
  • Estádio: o Beira-Rio, construído com a Campanha do Tijolo e inaugurado em 6 de abril de 1969.

Uma cidade com futebol separado por cor

Nas primeiras décadas do século XX, o futebol de Porto Alegre funcionava em circuitos paralelos. Os clubes da elite, muitos ligados à colônia alemã, disputavam a liga oficial. Jogadores negros, quando não eram aceitos nesses times, formavam suas próprias equipes em bairros como a Cidade Baixa, a Ilhota, a Colônia Africana e o Areal da Baronesa.

Desses times nasceu a Liga Nacional de Futebol Porto-Alegrense, conhecida como Liga da Canela Preta. Reunia clubes como Bento Gonçalves, Rio-Grandense, Primavera, União e Aquidabã. Boa parte da documentação dessa liga se perdeu na enchente de 1941, e o que se sabe hoje vem de entrevistas e de relatos reunidos por pesquisadores.

Nem sempre de portas abertas

O Inter nasceu, em 1909, como reação a clubes que só aceitavam descendentes de alemães, e seu quadro inicial era formado por gente de classe média e trabalhadores. Isso não significa que o clube tenha sido, desde o primeiro dia, aberto a jogadores negros. Um relato do compositor Lupicínio Rodrigues, filho do dirigente do Rio-Grandense, conta que o Internacional votou contra a entrada desse clube negro na liga oficial, episódio que deixou mágoa na comunidade.

A mudança veio nos anos 1920, quando o Inter passou a buscar jogadores em ligas e clubes ligados a negros, funcionários públicos, comerciários e estivadores. Foi uma decisão esportiva e também social: com o futebol caminhando para o profissionalismo, quem abrisse as portas teria acesso a um grupo enorme de talentos que os rivais desprezavam.

1928: Dirceu Alves veste vermelho

O marco simbólico dessa virada é Dirceu Alves. O defensor estreou pelo Inter em 1928, depois de começar em clubes da associação amadora ligada à comunidade negra de Porto Alegre, e é reconhecido pelo próprio clube como o primeiro atleta negro de sua história. Alguns pesquisadores citam nomes anteriores, como Dorval, em 1919, mas tratam Dirceu como o primeiro jogador reconhecidamente negro a defender o time.

A dúvida tem explicação. No início do século, muitos atletas negros ou mestiços eram registrados ou vistos como brancos, numa sociedade em que assumir a própria cor podia fechar portas. Por isso, falar no “primeiro” jogador negro de um clube exige cuidado. O que é certo é que, a partir do fim dos anos 1920, a presença negra no elenco colorado deixou de ser exceção.

O Rolo Compressor e o salto dos anos 1940

Nos anos 1930, o Inter passou a pagar seus jogadores, e a política de recrutar talentos onde os rivais não procuravam começou a render. Em 1940, o clube iniciou a sequência que entrou para a história: seis títulos gaúchos seguidos, de 1940 a 1945, a primeira vez que um clube conseguiu o hexacampeonato estadual. Vieram ainda os títulos de 1947 e 1948, fechando oito conquistas em nove anos.

O apelido Rolo Compressor foi criado por Vicente Rao, ex-jogador, animador de torcida e Rei Momo de Porto Alegre, que desenhava o time esmagando os adversários. O ataque reunia Tesourinha, Carlitos, Villalba e Adãozinho, com nomes como Alfeu e Abigail mais atrás. Foi esse time, com um elenco misto e popular, que fixou de vez a imagem do Inter como clube das arquibancadas simples. Em 1948, a equipe ainda aplicou um 7 a 0 no Grêmio, a maior goleada colorada na história do clássico.

Tesourinha, o ídolo que atravessou a barreira

Osmar Fortes Barcellos, o Tesourinha, nasceu em Porto Alegre em 1921 e estreou no Inter em 1939, aos 18 anos. Ponta-direita rápido e driblador, conquistou oito títulos gaúchos com o clube e marcou mais de 170 gols. Em 1949, foi titular da seleção brasileira campeã do Campeonato Sul-Americano, a atual Copa América, e no mesmo ano se transferiu para o Vasco.

Em 1952, voltou ao Rio Grande do Sul para jogar no Grêmio. A contratação é lembrada como o fim da barreira racial que o rival manteve por décadas e provocou protestos na época. Pesquisas mais recentes apontam um atleta negro no Grêmio ainda em 1912, mas Tesourinha segue como o primeiro jogador negro reconhecido do tricolor. Ele morreu em 1979, e o ginásio municipal de esportes de Porto Alegre, inaugurado em 1988, leva seu nome.

Do preconceito ao mascote: a história do Saci

A abertura do Inter à comunidade negra também virou alvo. Por volta de meados do século XX, parte da imprensa esportiva gaúcha passou a associar o clube a personagens negros em charges e textos de tom racista, ligando o time a uma suposta “malandragem”. Com o tempo, a figura do “Negrinho” se misturou à do Saci, personagem do folclore brasileiro.

A torcida inverteu o sentido da provocação e adotou o Saci como símbolo. Em 2016, o clube oficializou o personagem como mascote, transformando em orgulho o que tinha nascido como ofensa.

Beira-Rio: o estádio que a torcida carregou

Se os anos 1940 deram ao Inter a fama de Clube do Povo, o Beira-Rio deu a prova física. Em 12 de setembro de 1956, foi aprovada a doação ao clube de uma área dentro das águas do Guaíba, projeto do vereador colorado Ephraim Pinheiro Cabral. O terreno precisou ser aterrado, e as primeiras estacas foram cravadas em 1959.

Sem dinheiro para tocar a obra sozinho, o clube lançou a Campanha do Tijolo, com venda de carnês. Torcedores passaram a levar tijolos, cimento e ferro ao canteiro, muitos vindos do interior, mobilizados por programas de rádio. Houve quem trabalhasse de graça nas horas de folga, e até o futuro ídolo Falcão, ainda menino, aparece entre os que carregaram tijolos. As obras foram lideradas pelo português José Pinheiro Borda, que morreu antes de ver o estádio pronto e dá nome oficial a ele.

A inauguração foi em 6 de abril de 1969, dois dias depois do aniversário de 60 anos do clube, com vitória por 2 a 1 sobre o Benfica de Eusébio. Claudiomiro marcou o primeiro gol do estádio, Eusébio empatou e Gilson Porto definiu o placar.

Marcos da identidade popular do Inter

AnoFatoPor que importa
1909Fundação por jovens comerciários, estudantes e trabalhadoresClube criado fora da elite que dominava o futebol local
1928Estreia de Dirceu AlvesPrimeiro atleta negro reconhecido pelo clube
1939Estreia de TesourinhaSurge o grande ídolo negro do futebol gaúcho na época
1940 a 1945Hexacampeonato gaúcho do Rolo CompressorPrimeiro hexa estadual e explosão de popularidade
1956Doação da área no GuaíbaInício do projeto do Beira-Rio
1969Inauguração do Beira-RioEstádio erguido com apoio direto da torcida
2016Saci oficializado como mascoteSímbolo de ofensa racista transformado em orgulho

Perguntas frequentes sobre o Clube do Povo

Por que o Internacional é chamado de Clube do Povo?

Porque o clube se identificou, ao longo do século XX, com as camadas populares de Porto Alegre, abriu espaço para jogadores negros antes do principal rival e construiu o Beira-Rio com doações e trabalho da torcida.

Quem foi o primeiro jogador negro do Inter?

O clube reconhece o defensor Dirceu Alves, que estreou em 1928, como seu primeiro atleta negro. Alguns pesquisadores citam nomes anteriores, mas Dirceu é considerado o primeiro reconhecidamente negro.

O que foi o Rolo Compressor?

Foi o time do Inter dos anos 1940, hexacampeão gaúcho de 1940 a 1945 e campeão de novo em 1947 e 1948. O nome foi criado por Vicente Rao, e o ataque tinha Tesourinha e Carlitos como destaques.

A torcida ajudou a construir o Beira-Rio?

Sim. Com a Campanha do Tijolo, torcedores compraram carnês e doaram tijolos, cimento e ferro, e muitos trabalharam de graça na obra. O estádio foi inaugurado em 6 de abril de 1969.

Resenha Colorada

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